segunda-feira, 30 de abril de 2012

Escolhendo O TIME





Existem três bons motivos para escolher um time. Primeiro, tradição familiar. Segundo, entendimento do que é o bom futebol. Terceiro, um conjunto de características suas e do referido time, que fazem de vocês, unha e carne, alma gêmea. 

O seu tataravô, o bisavô, o seu avô, o seu pai torcem para o Palmeiras, você só pode ser palmeirense. Não gosta de tradição familiar, tudo bem. Aprendeu a entender de futebol, tudo bem. Então, decidiu torcer para a Ponte Preta, depois de 10 anos no Palestra Itália. Tudo bem.  Pode mudar de time com propriedade. Você sabe o que é futebol e julga que seu time do coração deve ser a Ponte Preta, tem meu respeito, vai lá. 

Mora do lado do Morumbi, cresceu ouvindo o hino do São Paulo, mas a família toda é corintiana, e você nunca quis contrariar (se bem que é quase impossível alguém morar nas imediações do Morumbi e ser corintiano, mas isso é hipótese e hipoteticamente vale tudo), agora aos 24 anos de idade, resolve declarar amor ao SPFC. Tudo bem, pode mudar. 

Não sei quem inventou essa história de "começou a torcer para um time, tem que torcer para o mesmo time até morrer". Às vezes, você escolhe sem saber o que faz. É igual carreira universitária, a maioria de nós escolhe o curso sem saber o mínimo a respeito dele, depois que está lá, descobre que não era nada daquilo. A mesma coisa acontece com futebol. 

Meu pai se diz santista, um santista meia-boca, isso sim é o que ele é. Por eu ser menina e ele não estar nem aí para futebol, cresci a mercê de outras influências familiares. Tenho duas tias corintianas, que se dizem corintianas, porque meu avô era corintiano. Mas meu avô morreu quando eu tinha cinco anos, não tive tempo de perguntar a ele sobre o Corinthians e saber porque ele era um deles. 

A família do meu pai (pai esse que se declara santista, hoje nem sei se ainda tem time), conta uma lenda de que existe um parentesco entre a Família Oliveira Rebouças e a Família "Raí" Souza Vieira de Oliveira, boato que nunca se confirmou. Logo, de 90 a 95, eu confesso, fui são-paulina. Naquela época tinha Zetti no gol e o São Paulo estava na "Era Telê Santana" e eu que não entendia nada de futebol, fui torcedora (meia-boca) do São Paulo em seus tempos de glória, que malandrinha. 

Com treze anos eu me achava esperta, me dei o ultimato: - Vou entender de futebol!- mas não tinha ninguém para me explicar sobre volante, cabeça de área, atacante, gandula, impedimento, 4-4-2, e todas essas coisas que fazem parte do espetáculo. Tinha minha tia corintiana, não me lembro exatamente de ter perguntado alguma dessas coisas para ela, mas dela dizendo: - Senta aí, assiste o jogo do Corinthians. - assisti um, dois, três. Agora já era corintiana, o que eu podia fazer. E continuava sem entender nada de futebol e ainda por cima metida a besta, quando alguém perguntava: - Qual seu time? - eu respondia: - Corinthians! - mas isso nunca me agradou, desisti do futebol e comecei a responder igual a minha mãe - Qual seu time? - eu respondia: - Nenhum.

Me dediquei ao voleibol. Época de ouro para o Brasil, esse esporte despontava na telinha com Maurício, Marcelo Negrão e Carlão. Era minha praia, praticava no ginásio (atual fundamental) e continuei no colegial (atual ensino médio), cortando e levando cortada. Mas eu gostava de futebol, ora sim ora não, estava eu na frente da televisão vendo jogo de um, depois jogo de outro e sem time. Isso foi a gota d'água, eu estava no colegial prestes a ingressar na faculdade, 17 anos de vida e nenhum time do coração. Me irritei. Me sentia marginalizada no país do futebol, e por estar crescidinha, fui eu mesmo quem deu conta de meu aprendizado no âmbito futebolístico. 

Pesquisei. Conheci Garrincha, Tostão, Didi e mais sobre o Pelé. Li sobre o quarteto: SPFC, Palmeiras, Santos e Corinthians. Eu tinha acompanhado a Copa de 94 e 98, conhecia a seleção, mas de Paulistão, Brasileirão, Mundial Interclubes, Libertadores, eu não sabia nada, busquei informação. Agora sabia um pouquinho de futebol; de clubes de futebol; de história do futebol; que gostava do Pelé; gostava de mar; gostava da cidade de Santos; descobri até que moro mais perto da cidade de Santos que de Itaquera, bairro da cidade de São Paulo.

Daí conheci o Santos, um time estável histórica e tradicionalmente falando, de craques sem soberba, de marotagem, simples, do Rei Pelé, alvinegro, sempre presente no cenário da bola, bem colocado, sem muitos altos e baixos (com quinze anos ganhei um pingente com uma correntinha, uma baleia de prata era o pingente, um sinal, eu não dei bola), um excelente time, deu faísca no coração, agora quem dá bola é o Santos. Não era arrogante, nem porco, nem gambá. Era o peixe, meu time era o peixe, sempre foi o peixe. 

Eu não me classifico nos torcedores por tradição familiar, mas no segundo (eu entendo um tico de bom futebol) e no terceiro motivo (um conjunto de elementos que me fizeram crer). O time que é a minha cara, combina comigo unha e carne, alma gêmea, em estilo, classe e relevância é o peixe. Porque a gente gosta mesmo é de mar, de brincar na grama como quem brinca n'água, com alegria. Esse amor já dura 12 anos, já passei da fase da paixão, já é amor, relação estável, união concreta. Quando decidi seguir o Santos como meu clube, eu sabia o que estava fazendo, mudei com o direito que eu tinha de mudar e que todos tem. Eu não sou de julgar ninguém, meu lema é respeitar, assim como se respeita o adversário em campo.

Espero não precisar mais me explicar sobre o motivo pelo qual me tornei santista, nem ser chamada de vira-casaca: - Viu? Minha amada tia! É uma pena, eu não ser corintiana para você, mas eu jamais poderia ser. Porque sempre fui Santista, só não sabia disso. 

Imagem: santosfc.com.br


domingo, 29 de abril de 2012

Memórias



As memórias são as fotos do passado que não se pode queimar. É o registro inevitável daquilo que se vive. Só não têm memória os que sofrem de alguma doença que os impeça ou aquele que vier a ter algo que o incapacite de lembrar. 

Há quem use como modo de reviver alegrias, outros para recordar tristezas. Eu uso a memória para planejar o futuro e me defender no presente. Como um grande arquivo morto de rostos e fatos, eu as consulto quando necessário. Minhas memórias são armas carregadas com destino certo. Relembro conversas inteiras, vírgulas. Sorrisos, frases refugadas. Palavras perdidas, momentos de medo e de felicidade, lugares, brigas, discussões completas, expressões detalhadas, abraços, cores de roupa a cor dos olhos, pessoas que conheci muito, que conheci pouco, todas. Me lembro de tudo. Tenho sorte. 

Coisas ruins devem ser esquecidas, é o que dizem. Discordo totalmente. Lembre de tudo, evite lacunas na sua mente. Algumas coisas escapam, mas as relevantes ficam, mesmo que você não queira lembrá-las, elas estão lá. Então, faço delas o que preciso fazer, faço-as jogar no meu time, evito os mesmos erros, mantenho o foco estável, me forço a enxergar as coisas e as pessoas como elas realmente são com o replay da memória. Vasculhando, encontro verdades explícitas até das coisas que um dia tentaram me esconder. Ao rememorar é possível ver o que não se via. Então, teimar comigo é bobagem, tentar me enganar também, justamente porque eu não posso apagar nada que fiz, nem o que fizeram para mim. Incluindo as palavras que ouvi e as atitudes paralelas que um ou outro tomou ao longo do caminho.

Daí dizem: - As coisas mudam - óbvio, mudam. Mas o processo de mudança é lento, cansativo e muito pouco dos que conheço querem passar por ele, logo, ainda valem as memórias. Elas fazem você gostar mais, de quem já se gosta, e ir cada vez gostando menos, de quem já não ocupava muito espaço. Entende? Quando você usa suas memórias para agir como aliada da sua felicidade, quem te fez sorrir, fará novamente. Quem te fez sofrer, nunca mais se aproximará de você. Lembre, somente lembre.

Imagem: vozdodeserto.wordpress.com

Contradição Elementar




Não sei para as outras pessoas, mas eu tenho a nítida sensação que a nossa cabeça não está ligada ao nosso corpo. Fisiologicamente é fato, ninguém anda por aí carregando a própria cabeça embaixo do braço. Mas no lirismo, coração e mente definitivamente caminham separados.

Os impulsos elétricos vindos do cérebro (da cabeça) parecem se perder numa ruptura entre o pescoço e o resto do indivíduo, basta observar como destemidos estamos quando decidimos confessar nossos sentimentos e no meio do caminho muda tudo, às vezes, muda até o sentimento. A mente vem negando, o coração afirmando. O coração diz pára, e a mente diz: - Vai continua! - é por isso, que anda sempre essa bagunça e ninguém sabe mais de nada.

Eu mesma não sei qual deles ouvir, mas já sei, pensam diferente. Tão opostos quanto sal e açúcar. Mas ambos furiosos, como a pimenta. Às vezes, coração e mente me parecem dois burros xucros amarrados um de costas para o outro, de bronca, para nunca mais se falarem. Como se o antagonismo deles fosse uma contradição elementar que não pode ser superada.

Porém, a culpa do coração contradizer a mente está no fato de a mente mudar o pensamento, porque o coração não muda o que sente. A cabeça  muda o que pensa e acha que pode decidir o que se sente, logo, está armada a confusão. Cada um devia ficar com a sua parte. Pronto, fica acordado assim, cabeça pense, coração ame. E não se fala mais nisso!

Só tem um problema, esses dois não dominam a minha língua. Para eles, sou uma completa idiota. Então, segue produção, se não cabeças vão rolar, e eu morrer do coração.



Imagem: juuhlorah.blogspot.com

Bom Senso por Tim Maia



             A maioria de vocês já ouviu ao menos uma vez, a música Bom Senso, de Tim Maia. Quem conhece a trajetória desse ícone funk-soul-brasileiro sabe que a canção foi escrita depois que o próprio se converteu à teoria filosófica-religiosa, denominada Cultura Racional. Não compactuo desta filosofia, mas particularmente gosto da música, não pelo seu cunho "racional", e sim pela grande sacada presa em suas entrelinhas.



Bom Senso - Tim Maia

1 Já virei calçada maltratada
2 E na virada quase nada
3 Me restou a curtição4 Já rodei o mundo quase mudo

5 No entanto num segundo
6 Este livro veio à mão

7 Já senti saudade
8 Já fiz muita coisa errada
9 Já pedi ajuda
10 Já dormi na rua

11 Mas lendo atingi o bom senso
12 A imunização racional
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             Ao ouvir os cinco primeiros versos, logo, os relaciono com a sociedade em que vivemos, porque estamos sendo calçada maltratada, nos tornando pouca coisa que valha a cada dia, curtindo a vida adoidado sem pensar no amanhã (no nosso, no dos outros e principalmente no amanhã da nação e do planeta. Embora, falemos demais em sustentabilidade, respeito e cidadania, estamos em estado de perfeita idiotice, alienados). Não conseguimos cuidar  das premissas básicas que  são de nossa responsabilidade e de mais ninguém. Por exemplo, a autoestimaautoestima, a garra e a vontade de lutar pelo que se deseja, não competem ao outro, é próprio de cada indivíduo.

             Vou pular os versos 5 e 6 e analisá-los ao final junto aos versos 11 e 12. Do verso 7 ao 10, temos o tocante aos sentimentos, a qualificação do homem, seu valor, o que sente, no precisa de ajuda, o que faz coisas erradas e chega a dormir na rua. Quem nunca cometeu suas loucuras em momentos de desorientação total? Mas interpreto esses versos de forma não casual, é efeito de uma sociedade invertida de longa data. Muitos segregados sociais estão dormindo na rua nesse exato minuto, se drogando, roubando, surrando suas famílias, fazendo coisas erradas e nos intervalos desse ciclo, pedindo ajuda à sociedade, ao cidadão.

             Agora, repito aqui, os quatro versos restantes.

             5 No entanto num segundo
             6 Este livro veio à mão

             11 Mas lendo atingi o bom senso
             12 A imunização racional.

             A interpretação literal desse trecho é a leitura feita por Tim Maia do livro da teoria filosófico-religiosa do qual o mesmo se converteu e julgou atingir o bom senso através dela. Mas na interpretação que faço, a grande sacada a que me referi, no início desta análise, é justamente o fato de podermos atingir o bom senso e a imunização contra a procrastinação que assumimos diante dos nossos papéis sociais.

             Deixamos a coisa toda correr solta por preguiça de pensar. Porém, quando o indivíduo lê, permite ou tem a chance de que um livro (jornais, revistas, sites, folhetos, panfletos, gibis, cordeis, não me importa o que leia, mas que leia) lhe venha às mãos, o problema pode ganhar luz - Mas lendo atingi o bom senso (verso 11) - através da leitura é que se fomenta pensadores, há efeitos causados que não podem ser bloqueados, ocorrem inerente a vontade do indivíduo: a fala ; a escrita ; os argumentos melhoram, mas não apenas isso, as informações provenientes, principalmente dos livros, forçam o indivíduo a trabalhar o ato de pensar com reflexão, criticidade e envolvimento. Os livros nos transportam para novos mundos, nos dão fórmulas mágicas, teorias, ensaios, fatos, ilusões. Dos livros tudo vêm.

             E bombardeados por tanta informação na era digital, separadas as relevantes daquilo que é lixo por uma linha tênue, precisamos garantir a imunização contra a barbárie informacional e isso só se dá através do contato com conteúdo de sustância, como por exemplo, as campanhas de leite materno, que incentivam o consumo do mesmo pela existência do colostro (líquido amarelado e opaco segregado pela glândula mamária durante o período final da gravidez e os primeiros dias depois do parto, rico em nutrientes).Os  livros são o colostro da educação e do ser pensante. Lendo, se atinge o bom senso. 

Imagem: mais.uol.com.br
Vídeo: youtube.com

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Das frutas para as pessoas


Existem pessoas cercadas de ilusões, porque presas ao dinheiro só enxergam suas falsas máscaras e os artifícios que dele fazem uso para parecerem melhores e maiores do que são. A verdade está para nós, assim como para as frutas. De que adianta uma bela casca, se da polpa nada se aproveita.

Cuidado você e eu. Com as cascas e com as frutas. Com as palavras bonitas, com os falsos juízos, de sabedoria, de amor e de bondade. Cuidado com a volatilidade das coisas e das pessoas, porque assim como as frutas, essas também passam, do tempo, do ponto e do limite.

Às vezes, o que você vê, acha que entende e pensa que ama é falso. Fora tudo forjado na cotação do dólar e no retorno pretendido. Então cuidado com o dinheiro e com o que ele te dá, uma casca irreparável de tão perfeita, enquanto a polpa apodrece tão rápido quanto é a flutuação cambial.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fugaz

Nunca tive medo do que é fugaz, eu tenho pavor mesmo do que é irrelevante. Ser transitório não significa falta de importância, aliás o que vale mais costuma durar o espaço de um minuto. Acontece e nada pode ser feito. Valor é atributo que cabe à nossa decisão e ainda há aquilo que nem podemos mensurar.

As irrelevâncias tomam seu tempo e não apresentam resultado. No final é impossível atribuir valor ao ocorrido. Conheço pessoas que estão vivendo sequenciais experiências sem importância com medo de fazer a análise das suas decisões e dar valor a elas, principalmente para as que são tomadas de forma fugaz, porque o homem pode passar anos pensando na tomada de decisão, e no momento verdade aparece a dúvida, e é esse espaço fugaz de tempo, que vai importar no futuro, não o tempo que ele gastou pensando no que iria fazer, mas o que efetivamente fez. O ato de começar é célere, terminar não.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Emulação

Pecado mortal é deixar-se dominar pela emulação. O que passa em sua cabeça é uma proposição da verdade que jamais será comprovada. Agônia pura, a despeito do que se sente.

Cometer um descaso assim, é fatal. Uma vez que, põe em risco toda uma curva de intenções. Intenções essas, calculadas e articuladas dentro de um teatro para atingir fins reais. É compreensível, que a falta de garantia e a subjetividade do homem, provoque esse sentimento, porém não se pode subverter a ele, se dessa forma for será decretado o fim.

No jogo dos erros, ganha quem comete menor número deles. E estar a mercê da emulação é errar mais que se deve. O ciúme cega, e cego não pode orientar-se corretamente na trincheira do desejo e do amor, porque além de, com o outro, há a sua própria luta, que em nada é caracterizada pela presença do outro. Então, para que enciumar daquilo que não te pertence e nem poderia.

Eu sei é difícil, vivo a me desprender das raízes da razão e por isso este texto passa a existir, antes expressar minha racionalização do sentimento que meu ciúme, o qual poderia desterrar todo o processo que construi lenta e metodicamente, para alcançar meu objeto a.

Aliás, objeto a que é significante a mim. Mas com desejo intrínsico de fazê-lo me dedicar sua castração e não procurar em meu ser o próprio objeto dele, o seu a, mas encontrar em meu ser aquilo que preencherá sua falta-ser e que dela ele não poderá se desvencilhar jamais, e assim sendo preencherá toda a minha falta-ser, pois sei que não sou, mas ele é por mim.

Então, sentir ciúme é arriscar muito mais que uma relação imaginária e sem raízes reais (até agora), é arriscar a solução de uma questão do inconsciente que pode sim estar mal interpretada por quem vos escreve, mas que tem acalmado profundamente esse id, esse coração, que se extravassa nas palavras para aquilo que não há palavra que possa descrever.