Existem três bons motivos para escolher um time. Primeiro, tradição familiar. Segundo, entendimento do que é o bom futebol. Terceiro, um conjunto de características suas e do referido time, que fazem de vocês, unha e carne, alma gêmea.
O seu tataravô, o bisavô, o seu avô, o seu pai torcem para o Palmeiras, você só pode ser palmeirense. Não gosta de tradição familiar, tudo bem. Aprendeu a entender de futebol, tudo bem. Então, decidiu torcer para a Ponte Preta, depois de 10 anos no Palestra Itália. Tudo bem. Pode mudar de time com propriedade. Você sabe o que é futebol e julga que seu time do coração deve ser a Ponte Preta, tem meu respeito, vai lá.
Mora do lado do Morumbi, cresceu ouvindo o hino do São Paulo, mas a família toda é corintiana, e você nunca quis contrariar (se bem que é quase impossível alguém morar nas imediações do Morumbi e ser corintiano, mas isso é hipótese e hipoteticamente vale tudo), agora aos 24 anos de idade, resolve declarar amor ao SPFC. Tudo bem, pode mudar.
Não sei quem inventou essa história de "começou a torcer para um time, tem que torcer para o mesmo time até morrer". Às vezes, você escolhe sem saber o que faz. É igual carreira universitária, a maioria de nós escolhe o curso sem saber o mínimo a respeito dele, depois que está lá, descobre que não era nada daquilo. A mesma coisa acontece com futebol.
Meu pai se diz santista, um santista meia-boca, isso sim é o que ele é. Por eu ser menina e ele não estar nem aí para futebol, cresci a mercê de outras influências familiares. Tenho duas tias corintianas, que se dizem corintianas, porque meu avô era corintiano. Mas meu avô morreu quando eu tinha cinco anos, não tive tempo de perguntar a ele sobre o Corinthians e saber porque ele era um deles.
A família do meu pai (pai esse que se declara santista, hoje nem sei se ainda tem time), conta uma lenda de que existe um parentesco entre a Família Oliveira Rebouças e a Família "Raí" Souza Vieira de Oliveira, boato que nunca se confirmou. Logo, de 90 a 95, eu confesso, fui são-paulina. Naquela época tinha Zetti no gol e o São Paulo estava na "Era Telê Santana" e eu que não entendia nada de futebol, fui torcedora (meia-boca) do São Paulo em seus tempos de glória, que malandrinha.
Com treze anos eu me achava esperta, me dei o ultimato: - Vou entender de futebol!- mas não tinha ninguém para me explicar sobre volante, cabeça de área, atacante, gandula, impedimento, 4-4-2, e todas essas coisas que fazem parte do espetáculo. Tinha minha tia corintiana, não me lembro exatamente de ter perguntado alguma dessas coisas para ela, mas dela dizendo: - Senta aí, assiste o jogo do Corinthians. - assisti um, dois, três. Agora já era corintiana, o que eu podia fazer. E continuava sem entender nada de futebol e ainda por cima metida a besta, quando alguém perguntava: - Qual seu time? - eu respondia: - Corinthians! - mas isso nunca me agradou, desisti do futebol e comecei a responder igual a minha mãe - Qual seu time? - eu respondia: - Nenhum.
Me dediquei ao voleibol. Época de ouro para o Brasil, esse esporte despontava na telinha com Maurício, Marcelo Negrão e Carlão. Era minha praia, praticava no ginásio (atual fundamental) e continuei no colegial (atual ensino médio), cortando e levando cortada. Mas eu gostava de futebol, ora sim ora não, estava eu na frente da televisão vendo jogo de um, depois jogo de outro e sem time. Isso foi a gota d'água, eu estava no colegial prestes a ingressar na faculdade, 17 anos de vida e nenhum time do coração. Me irritei. Me sentia marginalizada no país do futebol, e por estar crescidinha, fui eu mesmo quem deu conta de meu aprendizado no âmbito futebolístico.
Pesquisei. Conheci Garrincha, Tostão, Didi e mais sobre o Pelé. Li sobre o quarteto: SPFC, Palmeiras, Santos e Corinthians. Eu tinha acompanhado a Copa de 94 e 98, conhecia a seleção, mas de Paulistão, Brasileirão, Mundial Interclubes, Libertadores, eu não sabia nada, busquei informação. Agora sabia um pouquinho de futebol; de clubes de futebol; de história do futebol; que gostava do Pelé; gostava de mar; gostava da cidade de Santos; descobri até que moro mais perto da cidade de Santos que de Itaquera, bairro da cidade de São Paulo.
Daí conheci o Santos, um time estável histórica e tradicionalmente falando, de craques sem soberba, de marotagem, simples, do Rei Pelé, alvinegro, sempre presente no cenário da bola, bem colocado, sem muitos altos e baixos (com quinze anos ganhei um pingente com uma correntinha, uma baleia de prata era o pingente, um sinal, eu não dei bola), um excelente time, deu faísca no coração, agora quem dá bola é o Santos. Não era arrogante, nem porco, nem gambá. Era o peixe, meu time era o peixe, sempre foi o peixe.
Eu não me classifico nos torcedores por tradição familiar, mas no segundo (eu entendo um tico de bom futebol) e no terceiro motivo (um conjunto de elementos que me fizeram crer). O time que é a minha cara, combina comigo unha e carne, alma gêmea, em estilo, classe e relevância é o peixe. Porque a gente gosta mesmo é de mar, de brincar na grama como quem brinca n'água, com alegria. Esse amor já dura 12 anos, já passei da fase da paixão, já é amor, relação estável, união concreta. Quando decidi seguir o Santos como meu clube, eu sabia o que estava fazendo, mudei com o direito que eu tinha de mudar e que todos tem. Eu não sou de julgar ninguém, meu lema é respeitar, assim como se respeita o adversário em campo.
Espero não precisar mais me explicar sobre o motivo pelo qual me tornei santista, nem ser chamada de vira-casaca: - Viu? Minha amada tia! É uma pena, eu não ser corintiana para você, mas eu jamais poderia ser. Porque sempre fui Santista, só não sabia disso.
Imagem: santosfc.com.br



