sábado, 13 de fevereiro de 2016

THE GIVER - O Doador de Memórias



The Giver, título original. No Brasil, O Doador de Memórias. No coração um sentimento de nó na garganta. Um filme baseado no livro de Lois Lowry, produzido pela Paris Films, em 2014. Elenco formado por Meryl Streep, Jeff Bridge (o Doador) e o jovenzito Breton Thwaites, como Jonas. E na mente uma confusão tentando alcançar como seria esquecer de tudo de uma hora para outra e viver um vida asséptica. 

A verdade é que carregar memórias constitui uma dor e um prazer que precisamos aprender a lidar e tirar proveito, seja como for. Chorei desde a primeira cena, não um choro de quem sente dor, um pior, de quem sente pesar. Comecei trazer à memória tudo o que gostaria de esquecer ao passo que o Doador entregava a Jonas (o Recebedor) as memórias desse mundo, todas elas. E então, conflitava a vontade de esquecer com a alegria que tive em cada momento que agora queria descartar. 

As lembranças são particularidades, cada um traz a sua. O vermelho da maça é exclusivo aos olhos de quem a vê, pois a percepção da vida é inerente a massa, ela é única e indivisível como uma digital. O que sou para alguém é único, o inverso também é verdade, o que importa e ficará guardado em minha memória provavelmente será diferente entre mim e qualquer outro ser. 

Agora imagine, não lembrar de nada como realmente é. Não saber o que são os sentimentos e ser igual em tudo, o tempo todo? A intenção desse universo paralelo era evitar a dor, a consequência disso, evitou-se tudo, inclusive a felicidade, pois sem um o outro deixa de existir. Quando Meryl Streep diz: - As pessoas escolhem errado toda santa vez. Isso imediatamente me feriu, e acredito que feriria também a ti que me lê. Porque, arrisco dizer, que 99% das coisas que desejamos esquecer provém de escolhas erradas, nossas ou dos outros a nossa volta que acabaram por nos atingir. 

Eu mesmo, enfrento um dilema pessoal, eu poderia ter escolhido não falar, mas escolhi falar, escolhi o risco de me encantar, me apaixonar e sofrer, se não o tivesse feito, não teria sorrido tantas manhãs, nem teria tido o coração disparado a cada foto que recebi, a cada vídeo que assisti, e não teria perdido a voz naquela ligação repentina que tanto me emocionou. Nem teria sido a mais feliz de todas quando dormi abraçada com ele, aquela noite que pareceu um minuto.

Mesmo sabendo que haverá um momento em que toda essa felicidade cessará e virá a hora e a vez da dor, ainda assim, o escolho, ainda assim, o quero por perto. Entre bom dias e beijinhos. Palavras doces e duros golpes de realidade que a distância e as palavras dele fazem questão de me avisar. Mas se tivesse me privado a memória, nem estas palavras aqui estariam. 

Entendo perfeitamente porque Jonas escolheu dar a oportunidade a sua comunidade de sentir todos os lados da moeda, esta é a única forma de viver, se desmemoriados apenas existimos. Precisamos lembrar das dores para entender as alegrias, precisamos lembrar das bençãos para seguir em frente e ir a luta e honrar a vitória, aceitar a derrota. Precisamos lembrar para ter fé, pois só contempla o futuro quem teve passado, mesmo cheio de escolhas equivocadas.

E dessa forma, me recuso a esquecer dele, porque quero lembrar de tudo que ele me proporcionou, da felicidade que me deu e que eu ainda não conhecia, das palavras, das conversas, das fofices, de tudo em cada detalhe. Mesmo que geograficamente essa amor não possa acontecer, eu vou guardá-lo como um tesouro só meu. Que eu sofra um vida e sinta toda dor, em partes ou de uma só vez, não importa. Eu quero lembrar. De tudo. Absolutamente. Porque do amor, desse, graças a Deus, é impossível esquecer. 

E foi isso que Jonas devolveu ao vilarejo a chance do amor, como ele fez comigo, me devolveu a chance do amor.