Ela pinta as unhas de vermelho com apatia incomum, que não combina com quem ela realmente é. Displicente dos fatos, dos seus atos e dos acasos que a vida tem lhe dado. Como se já não fizesse sentido sonhar, como se a felicidade fosse o tempo de um sorriso.
Ela pinta as unhas de vermelho, porque sabe que todo tempo é passado, e desse tempo nada se resgata, nem se move. Imóvel, como seus lábios rijos, que esboçam uma expressão de fotografia de passaporte, inflexíveis e alheios a toda a alegria que um dia já lhe dera.
Ela pinta as unhas de vermelho como quem procura algo para roubá-la da verdade dolorosa da vida, para se transportar a um mundo de fantasia, onde as cores são mais fortes, as pessoas menos mornas, as mentiras pouco usuais. E sabe que chamariam de fuga, o que ela diz ser distração.
Entediada de tentar entender a razão
E cada um que passa leva um pedaço, desbota mais o seu viço, entristece a sua face e deixa as pontas de esperança espetando-a no peito, latentes, severas e incessantes. E as unhas vermelhas borram, ela as limpa e as retoca, uma vez mais, como faz com a sua jornada. Ela pinta as unhas de vermelho, como quem pinta a janela de uma casa, tentando trazer cor para quem enxerga em preto e branco.
Ela pinta as unhas de vermelho porque nada mais resta em suas mãos, se não as unhas semi-compridas, semi-vivas, semi-mortas, semi-qualquer coisa, como as coisas que lhe dão, que lhe servem, que lhe ofertam, a metade de tudo. E a parte inteira que lhe cabe é pintar as unhas, inteiras, porque não se pintam unhas pela metade, como também não se vive nada se não for por inteiro!!!
