Certo dia tu decides
Proteger teu coração.
Achando que com ele tu amas
Que vem dele toda paixão
Resolves fazer rimas pobres
No lugar das brancas
Tercetos e quartetos
com estes já não te encantas.
Esqueces do bom português
Comete erros frívolos
Te lembras que não falas inglês
Tens medo do que não foi dito
Então alguém chega e resolve te operar
Te faz uma craniotomia sem aviso prévio
Decide que vai te alcançar
Sem calcular friamente a consequência que sucederá
Com uma broca de 5 mm
De palavras certeiras atinge teu cérebro
Onde achavas tu, ninguém podia chegar
Aumenta a pressão intracraniana
Teu cérebro começa inchar, te dói tanto a mente
Que teu coração acelera sem cessar
Então esperas por aquelas intermináveis conversas
Para o quadro estabilizar
Como se doses diárias de diálogos
Ora intelectuais ora não
Porém todos eles carregados de sabedoria te fizessem sarar
Todo dia aprendes algo novo e pelas novidades começas ansiar
Te cansas fácil das mesmices das redes sociais,
das pessoas muito sociáveis
Das asneiras que falam e fazem
E ficas ali com o cérebro aberto
A espera do que virá
Pois até as piadas são inteligentes
E sem inteligência não consegues respirar
Descobres que tu amas com a cabeça
Que o coração é secundário, obedece teu pensar
E o que não sai do pensamento
Esse é quem estás a amar
Quem te furou o osso da mente
Não te permites com outro osso enxertar
Só te satisfazes sem rejeição aquele
Que te pusestes a amar
Quem mandou ele com a furadeira do saber
Teu crânio rachar?
Quem opera agora o buraco
E o faz parar de sangrar?
Transplante de coração já inventaram
Mas de cérebro ainda não há
Como amo-te com a cachola
Não hei nunca parar de amar.
domingo, 24 de abril de 2016
domingo, 3 de abril de 2016
Crescer é estranho.
Crescer é mesmo estranho. As obrigações aumentam e cada dia descobrimos um carnê novo. O sorriso leve vai sendo substituído por um profundo suspiro de dever cumprido. Ficamos mais sinceros e o medo muda de forma. Somos cautelosos no que sentimos e pensamos, e somos verdadeiros em tudo que fazemos. As loucuras de amor se tornam cada vez mais raras, para não dizer inexistentes, porque de tanta pancada que a vida nos deu, deixamos o frio na barriga de lado e optamos por não se mover em relação a isso, porque abominamos histórias tristes, já cansamos delas, queremos outros resultados. E o amor dá um pânico que nunca sentimos na adolescência, mas não deixamos de amar, somos sábios para crer que ainda vale tentar. Aprendemos a assumir nossas falhas, finalmente entendemos que perfeição é uma chatice inalcançável. E não vale a pena lutar por ela. Vale a pena fazer tudo o mais perfeito possível, dar o nosso melhor à exaustão para ver o outro sorrir, o conhecido e o desconhecido. Queremos apenas fazer o mundo e a própria vida um pouco melhor. Tomamos decisões acertadas, ou quase, com as melhores intenções possíveis, mas no fundo não sabemos nada que estamos fazendo. Admitimos isso apenas para nós mesmos e para alguns poucos e bons amigos. E com tempo vão mesmo se tornando bem poucos, de contar nos dedos das mãos. De certeza , só temos os sonhos que esquecemos no caminho, que ficaram para trás e nem temos como explicar o porquê. Substituimos a palavra sonho por intenção e enchemos a boca para dizer: - Tenho a intenção disso ou daquilo, mas prefiro não criar expectativas. Somos covardes para lidar com as frustrações. Perdemos o espírito destemido de criança e de certa forma isso nos torna menos felizes que poderíamos ser. Ficamos cheios de doenças crônicas, moléstias básicas, outras graves. Deixamos o salário na farmácia, no supermercado e com sorte naquela viagem tão esperada. Somos cercados de redes sociais, uma mais bizarra que a outra, mas somos pouco sociáveis. Prezamos a individualidade e isso é um fato da nossa geração. Fato triste. Percebemos que lar é onde o nosso coração está, e que alguns de nós vamos estar para sempre separados. E que a felicidade é efêmera e devemos vivê-la nos dias em que aparecer, não podemos nos dar o luxo de perder a chance. Ser adulto implica em mudanças que não queremos e as vezes nem estamos prontos para aceitar. Crescer é ter liberdade de fazer tudo e escolher não fazer, porque a vida tem dessas coisas. Será que crescer é mesmo estranho, ou nos tornamos cada vez mais estranhos a medida que crescemos? O tempo têm passado e estamos todos apenas tentando, tentando chegar ao ponto onde respostas para perguntas como esta que acabei de fazer, não precisem mais de resposta. Porque finalmente aprendemos a lidar com a dúvida.
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