domingo, 24 de abril de 2016

Poema Cirúrgico

Certo dia tu decides
Proteger teu coração.
Achando que com ele tu amas
Que vem dele toda paixão

Resolves fazer rimas pobres
No lugar das brancas
Tercetos e quartetos
com estes já não te encantas.

Esqueces do bom português
Comete erros frívolos
Te lembras que não falas inglês
Tens medo do que não foi dito

Então alguém chega e resolve te operar
Te faz uma craniotomia sem aviso prévio
Decide que vai te alcançar
Sem calcular friamente a consequência que sucederá

Com uma broca de 5 mm
De palavras certeiras atinge teu cérebro
Onde achavas tu, ninguém podia chegar

Aumenta a pressão intracraniana
Teu cérebro começa inchar, te dói tanto a mente
Que teu coração acelera sem cessar
Então esperas por aquelas intermináveis conversas
Para o quadro estabilizar

Como se doses diárias de diálogos
Ora intelectuais ora não
Porém todos eles carregados de sabedoria te fizessem sarar

Todo dia aprendes algo novo e pelas novidades começas ansiar
Te cansas fácil das mesmices das redes sociais,
das pessoas muito sociáveis
Das asneiras que falam e fazem

E ficas ali com o cérebro aberto
A espera do que virá
Pois até as piadas são inteligentes
E sem inteligência não consegues respirar

Descobres que tu amas com a cabeça
Que o coração é secundário, obedece teu pensar
E o que não sai do pensamento
Esse é quem estás a amar

Quem te furou o osso da mente
Não te permites com outro osso enxertar
Só te satisfazes sem rejeição aquele
Que te pusestes a amar

Quem mandou ele com a furadeira do saber
Teu crânio rachar?
Quem opera agora o buraco
E o faz parar de sangrar?

Transplante de coração já inventaram
Mas de cérebro ainda não há
Como amo-te com a cachola
Não hei nunca parar de amar.


Imagem: Revista Bula

domingo, 3 de abril de 2016

Crescer é estranho.

Crescer é mesmo estranho. As obrigações aumentam e cada dia descobrimos um carnê novo. O sorriso leve vai sendo substituído por um profundo suspiro de dever cumprido. Ficamos mais sinceros e o medo muda de forma. Somos cautelosos no que sentimos e pensamos, e somos verdadeiros em tudo que fazemos. As loucuras de amor se tornam cada vez mais raras, para não dizer inexistentes, porque de tanta pancada que a vida nos deu, deixamos o frio na barriga de lado e optamos por não se mover em relação a isso, porque abominamos histórias tristes, já cansamos delas, queremos outros resultados. E o amor dá um pânico que nunca sentimos na adolescência, mas não deixamos de amar, somos sábios para crer que ainda vale tentar. Aprendemos a assumir nossas falhas, finalmente entendemos que perfeição é uma chatice inalcançável. E não vale a pena lutar por ela. Vale a pena fazer tudo o mais perfeito possível, dar o nosso melhor à exaustão para ver o outro sorrir, o conhecido e o desconhecido. Queremos apenas fazer o mundo e a própria vida um pouco melhor. Tomamos decisões acertadas, ou quase, com as melhores intenções possíveis, mas no fundo não sabemos nada que estamos fazendo. Admitimos isso apenas para nós mesmos e para alguns poucos e bons amigos. E com tempo vão mesmo se tornando bem poucos, de contar nos dedos das mãos. De certeza , só temos os sonhos que esquecemos no caminho, que ficaram para trás e nem temos como explicar o porquê. Substituimos a palavra sonho por intenção e enchemos a boca para dizer: - Tenho a intenção disso ou daquilo, mas prefiro não criar expectativas. Somos covardes para lidar com as frustrações. Perdemos o espírito destemido de criança e de certa forma isso nos torna menos felizes que poderíamos ser. Ficamos cheios de doenças crônicas, moléstias básicas, outras graves. Deixamos o salário na farmácia, no supermercado e com sorte naquela viagem tão esperada. Somos cercados de redes sociais, uma mais bizarra que a outra, mas somos pouco sociáveis. Prezamos a individualidade e isso é um fato da nossa geração. Fato triste. Percebemos que lar é onde o nosso coração está, e que alguns de nós vamos estar para sempre separados. E que a felicidade é efêmera e devemos vivê-la nos dias em que aparecer, não podemos nos dar o luxo de perder a chance. Ser adulto implica em mudanças que não queremos e as vezes nem estamos prontos para aceitar. Crescer é ter liberdade de fazer tudo e escolher não fazer, porque a vida tem dessas coisas. Será que crescer é mesmo estranho, ou nos tornamos cada vez mais estranhos a medida que crescemos? O tempo têm passado e estamos todos apenas tentando, tentando chegar ao ponto onde respostas para perguntas como esta que acabei de fazer, não precisem mais de resposta. Porque finalmente aprendemos a lidar com a dúvida.