Certo dia tu decides
Proteger teu coração.
Achando que com ele tu amas
Que vem dele toda paixão
Resolves fazer rimas pobres
No lugar das brancas
Tercetos e quartetos
com estes já não te encantas.
Esqueces do bom português
Comete erros frívolos
Te lembras que não falas inglês
Tens medo do que não foi dito
Então alguém chega e resolve te operar
Te faz uma craniotomia sem aviso prévio
Decide que vai te alcançar
Sem calcular friamente a consequência que sucederá
Com uma broca de 5 mm
De palavras certeiras atinge teu cérebro
Onde achavas tu, ninguém podia chegar
Aumenta a pressão intracraniana
Teu cérebro começa inchar, te dói tanto a mente
Que teu coração acelera sem cessar
Então esperas por aquelas intermináveis conversas
Para o quadro estabilizar
Como se doses diárias de diálogos
Ora intelectuais ora não
Porém todos eles carregados de sabedoria te fizessem sarar
Todo dia aprendes algo novo e pelas novidades começas ansiar
Te cansas fácil das mesmices das redes sociais,
das pessoas muito sociáveis
Das asneiras que falam e fazem
E ficas ali com o cérebro aberto
A espera do que virá
Pois até as piadas são inteligentes
E sem inteligência não consegues respirar
Descobres que tu amas com a cabeça
Que o coração é secundário, obedece teu pensar
E o que não sai do pensamento
Esse é quem estás a amar
Quem te furou o osso da mente
Não te permites com outro osso enxertar
Só te satisfazes sem rejeição aquele
Que te pusestes a amar
Quem mandou ele com a furadeira do saber
Teu crânio rachar?
Quem opera agora o buraco
E o faz parar de sangrar?
Transplante de coração já inventaram
Mas de cérebro ainda não há
Como amo-te com a cachola
Não hei nunca parar de amar.
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