quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A última dose de Whisky



Quando você chegou era do tamanho da minha mão, dormia dentro de uma pantufa, dormia em cima da minha mochila todo dia depois que eu chegava da escola. Você nunca foi simpático, do tipo boa praça. Não era de abanar o rabo nem puxar o saco de ninguém. Achava que era tudo menos cachorro, gostava de ficar pendurado no pescoço da gente igual cobra, no ombro, igual papagaio. Sabia que era pequeno, por isso era bravo, de poucos amigos.

Quando eu passei pelos meus piores dias e nenhum ser humano me aguentava, você me aguentou. Você passou 6 meses na cama junto de mim. Não fez nenhum xixi, não fez nenhuma merda. Você me fez companhia quando ninguém queria fazer. Você era o cara.Você era o rei da casa, tinha nobreza. Você entendia de sofrimento e sempre estava lá para nos consolar, para lamber as lágrimas. A mulherada chora demais - você devia pensar.

Não vou parar de chorar tão cedo, por ser humana tenho uma coisa chamada egoísmo, coisa que os cachorros não tem. Vou sentir sua falta o tempo todo até passar e ficar só a lembrança do cachorro brigão e chato que você foi. A gente te ama, justamente por ser assim, honesto. Você não sofreu muito e isso é o que importa. Você está bem agora, é o que importa.

Enquanto escrevo para tentar diluir a dor, continuo chorando com você nos meus braços digitando com uma mão só, não aquela em que você morreu, porque essa está te segurando. Você ainda está no meu colo e quando fica silêncio, acho que ouço você respirar, te aproximo do meu ouvido, coloco os dedos no teu peito para sentir teu coração, mas não tem ninguém aí, né!?

Whisky era seu nome. Whisky durou 12 anos, era dos bons. Quem bebeu da sua alegria bebeu, quem não bebeu, não bebe mais. Você merecia um enterro com porre e charutos, porque era macho, marcador de território, brigão, nervosinho, perfeito em proporção e distinção, cachorro para competir em concurso de beleza da raça, mas você era macho demais,  não dava para essas bichisses. Só se apaixonou uma vez, pela Minie, uma pinscher linda, mas ela não te quis, depois disso desistiu do amor. Você meteu medo em muita gente, só os corajosos se atreveram contigo. Quem te conheceu, sabe o que digo.

Doze anos juntos e fim. Você morreu na minha mão, como eu disse que seria. Quando você estava indo, procurou alguém e me achou, eu estava lá, colocou a cabeça sobre a minha mão e chorou. Orei e pedi para Deus te levar em paz. E Ele te levou. Você deu o último suspiro, bem no teu estilo, mostrando os dentes. Morreu na minha mão, na mesma mão que você deu sua última mordida hoje de manhã. Você não era meu, era da minha irmã, mas nossa amizade era nossa, sabe como é, né!? 

Você morreu e me deixou sua última lição, sua última dose de amor. Olhou para mim como quem diz: - Tô indo nessa, vai ser agora. Hoje sou eu, mas amanhã vai ser alguém mais importante que eu, então aprenda a superar essa pequena dor que você sentirá em alguns instantes para amanhã ser forte o suficiente e enfrentar o que há de vir. Olhe para frente, segue teu rumo, porque meu caminho aqui acabou. E foi.

Você ainda está aqui, pendurado no sling, igual a um bebê no auge de seus 1400 gramas de pura marrentice que se apagou. Você morreu. Um dia, acontece com todo mundo mesmo, né?! Partiu para o Céu dos Cachorros, vê se não apronta muito aí em cima, ok?! Se comporta, cara!!! Seja bonzinho!

TE AMO!

p.s: e agora sei o que quer dizer a frase: - Vou te amar para sempre!