sábado, 3 de março de 2012

Todo ano é seu Marcelo!

FELIZ ANO VELHO, Paiva, Marcelo Rubens, 71° edição - Ed: Brasiliense (232 páginas;)



A primeira edição saiu, em 1982, ano em que nasci. Não há importância nisso, mas achei interessante a coincidência. Acabei de ler Feliz Ano Velho, este livro é bom, muito bom. Bom mesmo!

Luis Travassos diz no prefácio: "A tua história está transada de um jeito putamente terno, bem-humorado, erótico e sedutor, o que, aliás, e a sua maneira de ser" (p.09). Eu gostaria de ter dito isso.

Durante a leitura me deu uma vontade de beijar o Marcelo, enquanto ele estava na UTI, não sei dizer porquê. De repente, é porque ele está muito bonitinho na foto da capa, ou, pela força de vontade dele em pensar tanta bobagem, quando só mexia a cabeça e mais nada. E mais, sair de lá e escrever um livro. Me senti um pouco Nana. Quem não beijaria o Marcelo na boca, com a cabeça que ele tem? Ele poderia ser meu pai pela idade que tem, mas não é! Uma puta cagada, isso sim, mergulhar naquele lago raso foi uma bela de uma cagada, o resultado dela (o livro) não.

O pai, Rubens Paiva sumiu durante o regime militar brasileiro, a mãe sofreu as penas e o Marcelo escreveu assim:

"Chegará o dia de quem desapareceu com Rubens Paiva, assim como chegará o dia dos que desapareceram com vinte mil na Argentina, porque esses desapareceimentos têm o mesmo significado. O sadismo de alguns imbecis que apenas por vestirem fardas e usarem armas se acham no direito divino de tirar a vida de uma pessoa, pelo ideal egoísta de se manter no poder" (PAIVA, 1982, p. 65).

Diminuiu a quantidade de mortes? Talvez, sim, não sei. Mas o sadismo só aumentou, trocaram a farda pelo terno, escravizam o corpo indiretamente e a mente descaradamente. Esse é o nosso mundo. E pensar que tudo isso saiu da cachola arrebentada do Marcelo, que sentia uma coceira na cabeça e uma dor terrível na barriga durante a internação.

Quando se está no hospital, a realização é muito simples. Fiquei um mês e quarenta e cinco dias, indo e vindo do hospital Brasil, quando minha avó internou em meados de, 2011. E eu só pensava em voltar para casa e dormir. O Marcelo só pensava em dormir: "Ia dormir por alguns instantes, mas o suficiente para recarregar a bateria, já que outro dia viria pra me pirar" (p.71). É exatamente isso, os dias dentro do hospital são de pirar qualquer um.

Ele diz sempre se apaixonar por musas. "Aliás, isso é uma tremenda fraqueza minha: sempre me apaixono pelas musas, isto é, as mais desejadas do colégio" (p.74). Um romântico. Ele conta que ensaiava técnicas para conquistar garotas com o Richard. Que sabia do seu olhar profundo, e que o seu sorriso lindo ficava a cargo da descrição das meninas.

Marcelo fala de São Paulo, com um jeito particular de olhar as coisas. Como quem é de dentro, mas veio de fora, diferente de como nós paulistas falamos da paulistada (da gente mesmo). Toda vez que estou em São Paulo, preciso suspirar, da mesma forma que respirar, é involuntário, acho que é paixão.

Um cara musicista, musical e musicalizado: "Brinquei com o Cassy pra ele se preparar, pois estava surgindo um novo movimento musical chamado Paulistália (uma mistura de Tropicália com paulista canalha)" (p.130).

O Marcelo comentou do ABC, escreveu sem abreviar São Bernardo do Campo, "[...] um líder sindical em São Bernardo do Campo, que saia quase todos os dias no Jornal Nacional" (p.141). A cidade em que morei a vida toda, na boca do Marcelo Rubens Paiva, que emoção.

Um jovem potilicamente ativo, e essa conduta vai durar a vida toda. Se dizia, em FELIZ ANO VELHO, ingênuo: "É a minha mentalidade ingênua e ignorante das teorias revolucionárias da esquerda (Lenin, Trotsky, Marx...)" (p.143). Eu já quis mudar o mundo com a mesma visão do Marcelo, ainda quero, mas agora de um jeito diferente, o meu! Acho que ele também pensa assim.

Além de apaixonante, divertido e honesto, Feliz Ano Velho é didático, bucólico e politizado.

(Trilha para O Marcelo: CLARITY, John Mayer)

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