quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Drummond, por que você morreu?


               Carlos,
                Por que você morreu? Quando eu tinha apenas cinco anos, você morreu. Será que não sabia que de ti eu precisaria depois de gente grande.
                Por que você morreu?
                E deixou esse bando de palavras que dizem coisas e mais coisas sobre mim. Sobre o mito que plantamos em nós, na esperança de fabricarmos algo que nos aqueça no inverno e nos refresque no verão. A grande mentira, a platéia que nunca houve. Por que você morreu? E me deixou aqui te procurando nos outros, tentando me achar onde nunca estarei. Porque você morreu. E me deixou. Me deixou sozinha, sem ninguém. Porque você era minha gêmea, quer dizer minha alma, ou sei lá como se diz, um par perfeito em tua poesia. Carlos, por que morrer tão cedo? Eu continuo Fulana vagando nas tuas memórias, nos teus livros, nos meus sonhos.
                Drummond, por que partiu assim de mim, de longe, tão cedo? Tão sozinho. Eu iria com você, esperasse eu crescer, oras. Eu iria. Sinto que se te conhecesse jamais te abandonaria, de tão gigante que é o amor no meu peito. Eu te amaria como você amou em tuas poesias, eu te amaria imensamente, como único homem vivente nas terras dos meus devaneios, eu seria tua esposa.
                Mas você morreu e nem posso dar-te um tapa na cara. Porque morreste velho e sem forças, porque jamais me conhecera, nem sequer me vira. Como posso eu revidar tuas injustiças comigo?
                Vamos me responda, vou te arrancar do túmulo e dizer verdades para os teus ossos. Porque partiste assim, sem deixar recado?
                Sabe o que me resta agora, por tua culpa, me aninhar nos teus semenlhantes que não valem um bocado do que tu fora. E tenho assim sofrido inutilmente, porque o meu amor foi reduzido a mera utilidade.
                E saio por aí dizendo asneiras, cobrando respostas, que nunca, jamais me darão, porque não o são. Porque você só foi um, aquele que se foi.
                E quero gritar o nome do outro. Perdoe-me Carlos, eu te traio, como Fulana, faço justiça, eu te traio. Porque me deixaste e nada tenho eu parecido com viúvas. Porque sou jovem. Eu te traio em pensamento. Porque ninguém me quer Drummond, desde antes de nascer, ninguém me quisera, porque era você o homem da minha vida que eu nunca conheci.
                Não querem de mim, a carne, o corpo, a alma, nem o coração. E passo os dias arrumando briga com desconhecidos, falsos amantes. Que nada me devem, porque se nasci atrasada, cinco anos antes da sua morte, muitos anos depois a tua vinda, não posso culpá-lo por ter me atrasado para minha própria vida.
.: FIM :.

Nenhum comentário:

Postar um comentário