
Nada incomoda mais que espinha
dentro do ouvido. Quem já teve, sabe o que digo. Sei que o tempo não é para
comparações esdruxulas, mas é assim que me sinto em relação a história contemporânea
que está sendo escrita à tinta, carvão e bala de borracha.
Tem sádico pedindo a volta da
ditatura, o exército na rua, a jogar no lixo a luta de uma geração, que hoje, é
melhor idade e ainda traz no peito a mesma gana, agora com maturidade de
enxergar exatamente onde podemos dar, dar em nada (esse é meu maior medo). Não
precisa chegar nos nomes dos sobreviventes famosos, como Mário Lago ou dos
assassinados, como Vladimir Herzog, sem mencionar os desaparecidos, enterrados
nessa lama que se tem receio ainda em revirar, porque se o fizer vai achar.
Eles estão andando nas ruas, quiçá silenciosos sobre o que viveram. São nossos
pais, amigos dos nossos pais, pais dos nossos amigos, professores e
desconhecidos. Quando eu conversava com o Homero e com a Sonia, na ETELG (Escola
Técnico Estadual Lauro Gomes), eu sentia na voz deles o que isso significa. Se
não viveu esse horror é melhor não opinar, por favor.
Tem pai de família, dita classe
média, classe essa que não existe mais (pense bem) a cometer suicídio, porque
não tem como sustentar os filhos. Tem pobre minando as forças e miserável que
desceu tão baixo que não tem mais forma de classificar. Há de se criar novas métricas,
palavras e índices para mensurar o estrago. É crise em cima de crise, a história
se reescreve nos mesmos termos, quase nada mudou. E se vive do jeito que dá ou
não dá.
Fora Temer, fora Cunha, fora
Renan. Fim da era PT. E sobra PSDB, PMDB, PSB, PCB e mais um monte de P que
cabe num grande palavrão, mas achincalhar não resolve o problema. Até quem era
limpo se sujou, quem estava encardido chafurdou e não sobrou ninguém. O povo
vai à rua e não tem ninguém, ninguém que valha para meter no lugar. O cerne da
política está contaminado com o gene da corrupção, da roubalheira e do jeitinho
para se dar bem. Admita, muitos são assim.
Na prateleira das eleições é difícil
escolher. Não por falta de opção, há muitas. Há opções demais. É de ficar
confuso, cansado e cheio de errar sempre, porque parece que a mira é no peixe,
mas acerta o gato. Fica sempre descompassado. É como se não fosse mais possível
reconhecer caráter, acreditar no outro, o escâner está velado. Ou nivelou-se
por baixo.
Tem quem não queira se meter,
outros não tem o que falar, ninguém quer se comprometer, outra parte prefere se
alienar. E há quem acredite em tudo que passa na TV. Todo mundo procura um modo
de seguir em frente, de evitar mais problemas que já tem. Não julgo esse comportamento
como omisso, é uma forma de se posicionar. A quem critique, mas quem é quem
para criticar alguém? Há quem cobre postura, mas quem pode cobrar o quê e de
quem? É tanta falta de Deus, de fé, um descontrole instalado só não vê quem não
quer. E o que a gente quer, como diz Titãs: “ a gente não quer só comida,
diversão e arte. A gente não quer só comida. A gente quer saída para qualquer
parte”. É isso, a gente quer saída.
Quem não fica de saco cheio no
meio desse turbilhão? De saco cheio da política, da sociedade e das pessoas hipócritas,
de saco cheio até mesmo da própria hipocrisia. Quem nunca? E ainda precisa lidar
com os dramas individuais, os mimimi´s da vida cotidiana, as dores de cada um.
O amor, o caos e o tédio. De repente fugir seja sensato. É covarde. Mas talvez
seja o mais sensato, pelo menos da minha parte. Mas por vezes, falta vergonha na
cara.
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