sábado, 15 de maio de 2010

*.: Diário :.*

São 00:53 da madrugada, vira a chave, da partida no carro, e sai vagando nas ruas da cidade, que agora estão fervilhando e em breve estarão vazias. Olha pela janela, os bares, as baladas, ouve a música abafada, e sente apertar o peito, já não é mais como era antes. Chega em casa, vira a chave, dessa vez, na porta do apartamento, atravessa a sala, vê sombras vindas da janela. Entra no quarto, bagunçado. Descobre que hoje é sexta, e a diarista só passa por lá na segunda e na quinta. Hoje é sexta, e tudo já está um caos. Sente fome, caminha tranquilamente até a cozinha fria, abre a geladeira, procura algo que seja gostoso, mas só encontra uma garrafa de coca-cola gelada, duas barras de chocolate pela metade e nenhuma comida caseira que faça lembrar a própria mãe. Agarra a coca-cola, a barra de chocolate e corre para cama, feito criança que procura um colo, ao chegar encontra a cama vazia. Finge não se preocupar e liga a TV, e vê como é bonita e mentirosa a vida que existe nos filmes. Decora as falas e repete uma a uma. Em inglês, em espanhol, em japonês, não importa. A hora passa, começam a chegar as lembranças do dia que se foi, ou da noite. E tudo parece imcompleto. Acabou o chocolate, então finge de novo não se importar com a sensação de estar só. Parece que o mundo lá fora se esqueceu, se esqueceu de lembrar de alguém. Se enrola no edredon, percebe que deixou muita coisa para trás, percebe que desperdiçou muita gente legal, muita gente que valia a pena, descobre que deixou de aprender muita coisa legal, e deixou de garantir muitas coisas ainda melhores. Se enrola mais no edredon, tentando aquecer o que já está congelando a tempos. E se depara com o inevitável, tem passado a vida num caminhar solitário. Sem eira, nem beira, sem porto, sem casa, sem nada que seja de verdade. Não manda em nada, nem na própria vida. Em nada. Sempre vivendo do acaso e com o objetivo de ajuntar notas, porque se não há sentimento, família, animal de estimação, pós-graduação, o que resta é ganhar o pão. E pensa se roendo, se é capaz de conquistar a vidinha comum, que todo mundo sonha em ter. Pensa se essa vidinha, é mesmo para ser vivida. Ou se o jeito certo de fazer as coisas, é esse jeito torto que está a sua volta agora. Aperta o celular, dispara a contar tantos números que perde a conta, pior que contar carneirinhos, e descobre que cada número desse nunca significou, nunca despertou o quê precisa ser achado, o que precisa vir de dentro. Cochilou e não sonhou, não tinha nada que interessasse na sua mente. Nem ninguém. São 9:00 da manhã, ainda não dormiu, só resmungou, revirou os lençóis. Levantou da cama, tomou o segundo banho do dia, frio, para cair na realidade dura da vida que tem. Foi procurar o café, que ninguém coou, não tem pão. Veste a roupa, vai até a esquina, entra na padaria, coloca o sorriso fingido na cara, faz todo mundo acreditar que é feliz, coloca a pose de bacana, pede 5 pães, um queijo, um presunto, 5 pães de queijo e mais uma coca-cola. Saiu garlhando da piada que o português contou. Volta ao apartamento, finalmente senta e come. Sabe que tem mil coisas para fazer, mas volta para cama, para tentar fazer o que faz melhor, dormir. Mas o impulso fala mais alto, pega o telefone, liga um número qualquer, do outro lado uma voz feliz atende. E finge que a ligação é especial, do outro lado da linha alguém aceita um convite, não se atrasa, faz seu papel delivery da vez, se deixa usar, finge que usou. E vai embora como o costume pede, acabou de novo. Mais uma brincadeira. São 14:00 da tarde, quinto banho do dia, agora quente, veste a roupa, sai de casa, liga o carro, e segue para o trabalho, começou mais um dia. Vai começar tudo de novo.

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